As bem aventuranças

As bem aventuranças

O Sermão (Mt 5-7) do monte traz uma riqueza enorme de ensinamentos importantíssimos para a vida cristã. No entanto, nem todos os discípulos de Cristo entendem as implicações desses ensinamentos. As bem-aventuranças (Mt 5:1-12), por exemplo mostram características indispensáveis e que vamos analisar uma a uma, neste post.

Ensino aos discípulos

O Sermão do monte não é um padrão social exigido de todas as pessoas. Ele é um conjunto de ensinamentos sobre a vida dos discípulos de Cristo. Os que creem em Cristo, foram regenerados por ele e por isso são capacitados pelo Espírito a realizar o que é colocado como padrão de comportamento para os filhos de Deus.

É importante ressaltar que no capítulo anterior, Jesus começa a chamar seus discípulos e logo depois passa a ensiná-los. Sendo assim, essas ordenanças dadas no Sermão do Monte são imperativos dados aos cristãos no momento em que passam do status de criaturas para o status de filhos. Contudo, não quero dizer que o cristão será imediatamente perfeito, tampouco que ele alcançará essa perfeição na vida terrena. Esse deve ser o padrão buscado pelo seguidor de Cristo enquanto vivo, mas ele só será alcançado na glória, a partir da ação de Deus em nossos corpos, nos glorificando quando vier buscar sua noiva.

Nessa primeira parte do sermão, Jesus coloca uma série de bem-aventuranças que definem o discípulo. Vamos analisar cada uma delas a seguir. Mas antes precisamos esclarecer o que significa o termo bem-aventurado.

Bem-aventurados

Este termo (Grego = Makarios) se refere a alguém supremamente abençoado, muito feliz. No entanto, não devemos confundir com o que nós entendemos por felicidade hoje. Veremos que os bem-aventurados são pessoas felizes tendo completamente o contrário do padrão estabelecido pela sociedade como felicidade. A felicidade aqui é dada por Deus, sem elementos externos, sem dinheiro, sem sucesso, sem nada do que o nosso mundo egoísta e excêntrico denomina por felicidade.

Os pobres de espírito

A NTLH faz algo interessante ao trazer a afirmação

“Felizes as pessoas que sabem que são espiritualmente pobres…”.

Essa sentença, mostra a consciência da pessoa de que é nada. E essa é a melhor definição do que a bíblia chama de pobres de espírito.

A palavra que é usada para espírito é o termo grego “pneuma” que é um termo bem abrangente. Uma de suas definições está relacionada a uma disposição mental, ou um princípio vital. De uma forma geral, designa a totalidade do ser humano.

Unindo com o termo pobre (Grego = Ptocos) que aponta uma pessoa publicamente conhecida por sua completa dependência da caridade dos outros, temos que um pobre de espírito é alguém que é vazio de si, completamente necessitado de Deus.

Mais interessante ainda, é ver que essa é a primeira das bem-aventuranças. Dessa forma, Cristo está nos dizendo que antes que sejamos consolados, antes de herdarmos a terra, antes que sejamos fartos, antes de vermos a Deus, antes de sermos chamados filhos de Deus, precisamos nos esvaziar de nós mesmos e reconhecer que Deus é a única razão pela qual vivemos, reconhecer que sem ele não somos nada e saber que nada além da graça de Deus nos salva e nos purifica de todo pecado, sem nenhum mérito, simplesmente pela vontade soberana de Deus. O Reino de Deus é dessas pessoas.

Os que choram

Os discípulos de Cristo choram pois estão frente as suas debilidades, frente as suas fraquezas e a sua condição de pecador. A pobreza de espírito deles faz com que estejam mais próximos de Deus e com isso percebem o quão imperfeitos e o quão pecadores e carentes de Deus são. O que o apóstolo Paulo descreve em Romanos 3:23-24

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.”

se torna tão real e palpável para quem segue a Jesus que essa pessoa chora diante de sua condição.

Para essas pessoas há uma promessa: Eles serão consolados. Essa esperança não é para já, mas é uma promessa escatológica, que se cumprirá quando Cristo vir buscar sua igreja, como descrito em Apocalipse 21:3-4:

“Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: “Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (NVI)

Os mansos

Mansidão aqui pode ter mais de uma implicação. A primeira é interna: nossa submissão a Deus. A palavra usada no grego para manso é Praus que também pode ser traduzida como humilde, dessa forma a mansidão ou humildade que temos como padrão é a de Jesus como descrito por Paulo em Filipenses 2:5-8:

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz” (NVI)

A outra implicação é externa. Ao contrário das bem-aventuranças precedentes, essa se mostra externamente. Mais à frente no versículo 39 Jesus nos revela que a pessoa que é mansa não procura vingança, nem ressarcimento, ela simplesmente vira a outra face.

“Mas eu digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.” (Mateus 5:39 – NVI)

A promessa para os mansos é que eles herdarão a terra. Essa incumbência foi dada primeiramente a Adão e Eva com o dever de dominar a terra. Mas foi em Abraão que ela ganhou o status de promessa quando foi dito que este seria pai de muitas nações, que sua descendência seria numerosa e que através dele seriam abençoadas todas as famílias da Terra. Nós fazemos parte da descendência espiritual de Abraão. Somos igreja de Cristo, somos seus discípulos e a nós, os mansos, é prometido que herdaríamos a terra, não no sentido extensivo, mas no sentido não distintivo. A terra será ocupada em cada canto por um discípulo de Jesus.

Essa promessa, no entanto, tem um caráter mais forte para a esperança do cristão, que é a volta de Cristo. Uma herança só é dada quando o proprietário original morre. Cristo já morreu na cruz e por isso nós já recebemos a terra como herança, mas isso só se concretizará de fato no dia da sua vinda como dito em Mateus 25:34:

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo.” (NVI)

Os que têm fome e sede de justiça

A primeira coisa a se falar aqui é que a justiça dita por Jesus nessa sentença, nada tem a ver com o que nós entendemos por justiça. Não tem relação com a justiça penal, tributária ou qualquer área que seja de relação entre homens. A justiça a qual Cristo se refere pode ser entendida de duas formas.

A palavra utilizada no grego é dikaiosune, que seria melhor traduzida por retidão, equidade e esse termo vem da raiz dikaios que significa absolvido ou inocente. Sendo assim, temos as seguintes implicações.

A primeira é que Jesus está falando sobre que os que têm fome e sede de serem retos, justos, perfeitos e santos, cumprindo a palavra que foi dada à Israel em Levítico 11.45; 19.2; 20.7 e em Mateus 5.48.

“Porque eu sou o Senhor, que vos fiz subir da terra do Egito, para que eu seja vosso Deus, e para que sejais santos; porque eu sou santo.” (Levítico 11:45 – NVI)

“Diga o seguinte a toda comunidade de Israel: Sejam santos porque eu, o Senhor, o Deus de vocês, sou santo.” (Levítico 19:2 – NVI)

“Consagrem-se, porém, e sejam santos, porque eu sou o Senhor, o Deus de vocês.” (Levítico 20:7 – NVI)

“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês.” (Mateus 5:48 – NVI)

A segunda referência é aos que têm sede da justiça que é imputada pelo sacrifício de Cristo na cruz. Que nos justifica, que nos inocenta e que nos absolve. O que Jesus promete é que estes serão fartos. João 4.14 e João 6:35, 48-51 expressam de forma clara o saciamento que Jesus trará aos famintos e aos sedentos da justiça de Deus.

“mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. (João 4:14 – NVI)

“Então Jesus declarou: “Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.” (João 6:35 – NVI)

“Eu sou o pão da vida. Os seus antepassados comeram o maná no deserto, mas morreram. Todavia, aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo”. (João 6:48-51 – NVI)

Os misericordiosos

Cristo ressalta e louva os misericordiosos e condena os que não praticam misericórdia em vários de seus ditos, como Mateus 9.13; 12.7; 18:33; Tiago 2.13 e Salmos 41:1.

“Vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores”.” (Mateus 9:13 – NVI)

“Se vocês soubessem o que significam estas palavras: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios’, não teriam condenado inocentes.” (Mateus 12:7 – NVI)

“Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu tive de você?” (Mateus 18:33 – NVI)

“porque será exercido juízo sem misericórdia sobre quem não foi misericordioso. A misericórdia triunfa sobre o juízo!” (Tiago 2:13 – NVI)

“Como é feliz aquele que se interessa pelo pobre! O Senhor o livra em tempos de adversidade.” (Salmos 41:1 – NVI)

E mostra o cumprimento da promessa de que estes alcançarão misericórdia em Mateus 25.31-46:

“Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’. “Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar? ’ “O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. “Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos. Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram’. “Eles também responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos? ’ “Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo’. “E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna”.” (Mateus 25:31-46 – NVI)

Os limpos de coração

Quando a bíblia se refere ao coração, na maioria das vezes está se referindo a fonte de todas as coisas do ser humano. Das vontades, das emoções, do caráter, enfim, de tudo. Quando vemos a promessa referente aos limpos de coração podemos pensar: “Mas ninguém tem esse grau de pureza em todas as suas atitudes”. No entanto, o puro de coração é assim pois o Senhor o regenerou. Lembre-se de que o sermão do monte é proferido aos discípulos de Cristo, aos que já foram transformados pela graça de Deus. Dessa forma, o puro de coração é aquele no qual o Espírito Santo imputou graça e misericórdia, o que foi justificado e transformado em sua natureza pecaminosa pela ação de Deus.

Os pacificadores

O dicionário de Grego Mickelson define (por implicação) como pacificadora a pessoa que: “Leva os outros à paz com Deus, ministrando as boas novas que são o perdão de Deus e a redenção pelo sacrifício de Cristo na cruz”. O apóstolo Paulo indica que os pacificadores também são pessoas que procuram manter-se em boa convivência com todas as pessoas em Romanos 12.18, da mesma forma como o autor de Hebreus exorta em Hebreus 12.14.

“Façam todo o possível para viver em paz com todos.” (Romanos 12:18 – NVI)

“Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor.” (Hebreus 12:14 – NVI)

Ainda no capítulo 5 de Mateus, Jesus encoraja aos seus discípulos a manter a paz com os seus irmãos nos versículos 23-24 e também com seus adversários nos versículos 25 e nos versículos 44-48. A esses, Jesus diz que serão chamados filhos de Deus.

“Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta. “Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz, e o juiz ao guarda, e você poderá ser jogado na prisão.” (Mateus 5:23-25 – NVI)

“Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”.” (Mateus 5:44-48 – NVI)

Os perseguidos

A perseguição faz parte da vida do Cristão, uma vez que este não está enquadrado nos moldes deste mundo que “jaz no maligno” como dito em 1 João 5:19. Os discípulos de Cristo serão perseguidos porque são justos, por causa da justiça da qual eles têm sede e fome. Quanto a isso Paulo nos exorta em Romanos 12:2:

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2 – NVI)

Regozijai-vos

Jesus encoraja os seus discípulos a ficarem felizes quando perseguidos por seu nome, porque a eles será dado o reino dos céus. Essa alegria pelas perseguições por amor de Cristo é vista em praticamente todas as cartas do novo testamento.

1 Pedro 3:14-15 nos diz pra não nos entristecermos pelas perseguições, mas estarmos sempre prontos a responder a qualquer um que queira, gritando aos quatro ventos, qual é a nossa esperança: Jesus.

1 Pedro 4:12-14 traz um encorajamento maravilhoso. Somos participantes dos sofrimentos de Cristo e isso para nós é uma glória.

2 Coríntios 4:8-11 Mostra uma das verdades mais maravilhosas das escrituras. Nós somos sempre entregues à morte por amor a Jesus, assim a Sua vida se manifestará na nossa.

Há muitas outras passagens que confirmam isso, mas encerro com Romanos 5:3-5:

“Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado, e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do seu Espírito Santo que ele nos concedeu.”.

Conclusão

Tudo o que foi dito aqui se aplica a todos nós, discípulos de Cristo e é algo requerido de nós para hoje. Sabemos que não alcançaremos a perfeição nesta vida, mas enquanto vivermos continuaremos nos santificando e desenvolvendo nossa fé, nos preparando para o grande dia quando Cristo voltar e nos levar para junto dele. Amém.

 

Referências

Dicionário de Grego Mikelson

BTCast 145: http://bibotalk.com/podcast/btcast-145-as-bem-aventurancas/

Comentários da bíblia Genebra e NTLH de estudo

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